Valorize suas conquistas
Queria poder conversar com meu "eu" de 5 anos atrás
Existe uma sensação estranha que acontece depois de qualquer conquista.
Não importa o tamanho dela.
Pode ser um carro, um emprego melhor, uma viagem, uma casa ou até algo muito mais simples.
Durante meses, às vezes anos, você imagina como será sua vida quando finalmente conseguir aquilo.
Então acontece.
E por um breve período tudo parece diferente.
Mas o tempo passa, e, sem perceber, aquilo deixa de ser uma conquista e vira rotina.
Esses dias me peguei pensando na minha vida de um ou dois anos atrás.
Lembrei de coisas que eu queria muito ter e de objetivos que pareciam distantes demais para alguém como eu.
Com disciplina e um pouco de sorte, boa parte deles aconteceu.
O curioso é que hoje quase nunca penso nisso.
É como se essa sempre tivesse sido a minha vida.
Como se eu tivesse esquecido completamente o caminho que precisei percorrer para chegar até aqui.
A jornada é foda…
No começo de 2024 surgiu uma oportunidade de aumentar meu salário em cerca de 40%.
Para mim, aquilo era muito dinheiro.
Mas toda oportunidade cobra alguma coisa em troca.
No meu caso, ela cobrava sono.
Eu morava a cerca de quatro quilômetros do trabalho e meu único meio de transporte era uma bicicleta que havia comprado com meu primeiro salário, aos quinze anos.
Para aceitar aquele novo horário, meu despertador teria que tocar às 5h30 da manhã.
Isso significava dormir por volta das nove da noite, reorganizar completamente a rotina e pedalar no escuro antes da cidade acordar.
E moro em uma região de serra. No inverno, fazia um frio que eu nunca consegui descrever direito.
O caminho até a empresa era praticamente uma subida contínua.
Quando finalmente chegava ao topo e começava a descer, o vento gelado batia no rosto como se rasgasse meus olhos.
Em alguns dias a neblina era tão intensa que eu mal conseguia enxergar alguns metros à frente.
Passei cerca de seis meses vivendo assim.
Na época, aquilo nunca pareceu um sacrifício.
Parecia apenas o preço que eu precisava pagar pela vida que queria construir.
Hoje, olhando para trás, percebo que sinto até uma certa saudade daquele período.
Não porque ele fosse confortável.
Mas porque existia uma clareza que hoje já não existe.
Eu sabia exatamente o que queria.
E cada pedalada me aproximava um pouco mais daquilo.
A ânsia de ter
Durante muitos anos eu fazia esse mesmo trajeto de bicicleta.
Quatro viagens por dia.
Algo próximo de dezoito quilômetros.
E, durante boa parte desse tempo, eu só pensava em uma coisa.
Ter um carro.
O curioso é que eu nem sempre pensei assim.
Quando tinha quinze anos, meu maior sonho era justamente comprar aquela bicicleta.
Ela representava liberdade.
Não depender dos meus pais para ir à cidade.
Poder sair quando quisesse.
E, quando finalmente consegui comprá-la com meu primeiro salário, foi exatamente isso que ela me deu.
Durante um tempo, porque depois de alguns anos ela deixou de representar liberdade.
Passou a representar cansaço.
No último ano do ensino médio eu já não sonhava mais com a bicicleta.
Sonhava com o carro.
E foi aí que percebi uma coisa.
Talvez as conquistas não envelheçam.
Talvez sejamos nós que nos acostumamos com elas.
Pensa em alguma coisa que você desejou muito.
Um celular.
Um videogame.
Um carro.
Um emprego.
Nos primeiros dias aquilo parecia extraordinário.
Você cuidava como se fosse parte de você, mostrava para todo mundo, sentia uma felicidade quase infantil.
Até que, sem perceber, aquilo virou apenas... sua vida.
O celular passou a ser só um celular.
O carro virou apenas o carro da garagem.
A emprego virou o emprego de sempre.
É como se sofrêssemos de uma espécie de amnésia.
Não esquecemos da conquista.
Esquecemos do desejo que existia antes dela.
O filósofo Platão dizia:
— Desejamos justamente aquilo que não temos. Enquanto falta, aquilo parece indispensável.
Depois que algo passa a fazer parte da nossa rotina, deixa de despertar o mesmo encantamento.
E talvez seja por isso que vivemos sempre olhando para a próxima conquista.
Não porque a anterior perdeu valor.
Mas porque nosso cérebro é rápido demais em transformar milagres em normalidade.
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O tédio de possuir
Talvez o erro esteja na forma como enxergamos nossos desejos.
Durante muito tempo achei que eu queria um carro, hoje percebo que não era exatamente isso.
O carro era só um símbolo.
O que eu realmente queria era liberdade.
A sensação de estar avançando na vida.
O objeto era apenas a embalagem.
Talvez seja por isso que tantas conquistas decepcionem. Porque esperamos que elas resolvam um sentimento que nunca pertenceu a elas.
Nenhum carro entrega propósito.
Nenhum celular entrega paz.
Nenhum emprego entrega tranquilidade.
Nós projetamos essas expectativas sobre as coisas e, quando finalmente as conquistamos, descobrimos que elas nunca prometeram nada disso.
Elas apenas existem, o resto foi imaginação nossa.
E talvez seja justamente aí que nasce o tédio de possuir.
Não porque deixamos de valorizar aquilo que conquistamos.
Mas porque percebemos que nenhum objeto consegue sustentar, por muito tempo, a expectativa que colocamos sobre ele.
É por isso que a próxima conquista sempre parece mais sedutora.
Não aprendemos a desejar coisas.
Aprendemos a desejar a promessa de felicidade que colocamos nelas.
O que fazer, então?
Nada disso significa que devemos parar de sonhar.
Muito pelo contrário, ainda existem muitas coisas que quero conquistar.
Lugares que quero conhecer.
Projetos que quero construir.
Pessoas que ainda quero encontrar pelo caminho.
O problema nunca foi desejar mais. O problema é esquecer o quanto você já desejou o que hoje chama de rotina.
Às vezes imagino como seria encontrar a minha versão de quinze anos.
Acho que ela ficaria impressionada com algumas coisas que hoje considero completamente normais.
O carro.
O trabalho.
A newsletter.
A liberdade de escrever sobre o que penso e encontrar milhares de pessoas do outro lado da tela.
Talvez ela olhasse para tudo isso com os mesmos olhos que hoje eu olho para os meus próximos objetivos.
E isso diz muito sobre a forma como vivemos.
Estamos sempre conversando com uma versão futura de nós mesmos.
Quase nunca paramos para ouvir aquela que ficou para trás.
Talvez, de vez em quando, valha a pena fazer esse exercício.
Não para viver preso ao passado.
Mas para lembrar que a vida que hoje parece comum já foi, um dia, exatamente aquilo que você pedia em silêncio.
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